Certo dia, pela hora do almoço, resolvi pensar a quantos deveria agradecer pelo arroz que estava em meu prato e então, mentalmente, comecei a fazer a lista de tudo o que estava envolvido no processo produtivo daquele alimento.
De repente, ainda pelo meio do caminho, fiquei assustada com a quantidade de coisas e pessoas que se entregaram para que eu, naquele momento, pudesse estar usufruindo daquele bem.
Só para dar uma idéia, a lista dos agradecimentos era mais ou menos assim:
· devo agradecer à mãe natureza, pela terra;
· devo agradecer ao homem que investiu na compra da terra, mesmo sem saber se daria ou não. Poderia ser que geasse ou desse uma praga que pusesse a perder todo o seu esforço;
· e também a todos os que trabalharam para limpar o terreno para o plantio;
· aos tratoristas que operaram as máquinas de arar a terra;
· aos que semearam;
· ao sol por ser a fonte que deu a vida à planta e à lua que regulou os ciclos da vida;
· aos que irrigaram o terreno e aos que trabalharam na construção dos equipamentos para irrigação;
· aos que colheram o arroz;
· aos que beneficiaram e ensacaram o arroz;
· ao caminhoneiro que transportou aquele arroz beneficiado até o ponto de venda;
· aos que trabalham no supermercado contabilizando as mercadorias, estocando-as, colocando-as nas prateleiras; à pessoa que trabalha no caixa, ao embalador e outros tantos;
· a mim mesma pela possibilidade financeira de comprá-lo;
· a meus pais por terem se empenhado muito para que, hoje, eu pudesse ter essa condição;
· àquela cozinheira que prepara o arroz;
· aos que extraíram o sal e o beneficiaram;
· a todos os envolvidos no plantio, colheita e transporte e venda do alho e da cebola;
· a todos os envolvidos na produção do óleo de cozinha;
· a cada um dos que trabalharam para que o trator, o caminhão e meu carro fossem feitos, desde o seringueiro que extraiu a borracha da qual se fez o pneu, até os que produziram cada porca e parafuso dos mesmos;
· à mãe natureza pelo petróleo utilizado na produção do combustível que move o trator, o caminhão e o carro;
· aos que trabalharam na sua extração, refino e transporte do petróleo;
· a Thomas Edison pela invenção da luz elétrica que propicia a automação de todos os processos produtivos;
· aos que fabricaram os postes, fios, lâmpadas, computadores etc etc etc.
Lá pelas tantas cheguei à conclusão que, se com atenção fosse desdobrando os procedimentos, essa lista iria longe, muito longe! E, se resolvesse agradecer também pelo feijão, pela carne, pelas verduras e legumes que também estavam à mesa, pela cadeira em que estava assentada, pelo local em que me encontrava comendo, demoraria uma eternidade para fazê-lo.
Anteriormente, nunca havia parado para ver que as coisas que chegam a mim, aqui e agora, custa ou custou muito trabalho, empenho e investimento de outros.
Todos os que me educaram sempre se preocuparam muito em me ensinar a agradecer. Mas hoje vejo que eles me ensinaram o que haviam aprendido. Eles me ensinaram a dar o agradecimento social.
O agradecimento social é válido, entretanto é um proceder mecânico porque agradecemos por agradecer. Quando dizemos “muito obrigada” a uma pessoa, muitas vezes, pensamos até que ela não fez nada mais do que a sua obrigação, e que, de fato, nem precisaríamos agradecer. E mais, é até comum sentirmo-nos muito bondosos e educados porque o estamos fazendo.
Hoje compreendo que se parasse para agradecer por este exato momento que vivo, pelo privilégio de estar confortavelmente assentada em um local limpo, bem equipado e bem decorado, ouvindo uma música suave, utilizando um “notebook” para escrever, tendo um copo de água ao meu lado e café à minha disposição, nem posso imaginar quanto tempo gastaria, talvez dias.
Cheguei à conclusão que nossa cegueira é tanta que não temos a menor noção do que recebemos na vida. Ao contrário, somos capazes de passar uma vida inteira valorizando os momentos que nos causaram incômodo ou dor.
Por exemplo: se transformarmos em número de horas a idade de uma pessoa que esteja hoje com 50 anos, diríamos que ela já viveu 438.000 horas. Suponha que essa pessoa tenha estado sofrendo, todos os dias da sua vida, sem faltar um, durante 4 horas por dia. Então, as horas de sofrimento somariam 73.000 horas, o que representa aproximadamente 17% das horas vividas.
Considerando esses números vê-se que essa pessoa passou 17% do tempo de sua vida sofrendo e 83% do tempo recebendo graças. Pergunto-me, então: Porque enfatizamos a fração pouco representativa, ao invés de olharmos para o que tem sentido e peso?
E, se analisarmos bem, verificamos ainda que o exemplo dado não tem fundamento porque, ainda que a pessoa passasse o dia inteiro sofrendo, o fato que causou sofrimento durou apenas alguns minutos, senão vejamos: uma pessoa pode passar o dia chorando porque alguém disse que não gostava dela ou que ela não era inteligente e capaz (e às vezes nem falou, mas a pessoa inferiu que o outro assim pensava), mas a ação do outro não durou mais do que alguns minutos, todo o tempo adicional de sofrimento foi fruto do poder que a parte atingida deu ao outro, desencadeando assim os processos emocionais e mentais que mantiveram a dor latente.
Contabilizando melhor, o percentual de horas sofridas, se chegasse a 2% seria muito! Dois por cento de dor e 98% de graça. Então, porque tanta desgraça?
E se ainda fossemos mais longe e reconhecêssemos que o sofrimento também é uma graça, e talvez a maior graça porque funciona como força de choque para a cura dos aspectos de nossa alma que precisam evoluir, esse número cairia para zero.
Desgraça é, pois, a falta de reconhecimento da graça.
(...)
Lúcia Borelli